Ajuste os controles para o centro do sol

FONTE: Imagem de divulgação do evento no Facebook, desenvolvida pelo Boi Voador.

Mesmo não sendo minha primeira oportunidade de participar de Ajuste os controles para o centro do sol, de Luiz Prado, certamente foi a mais marcante. Antes, participei do jogo no Ciclo de Vivências em Jogos Narrativos e na, carinhosamente apelidada, blackbox sorocabana.

Dessa vez, o larp ocorreu durante o 11º Encontro de RPG do CCJ, promovido pela Confraria das Ideias (site, blog e Facebook). Além de ter participado de um larp da própria Confraria (relato aqui), ocorreu uma aplicação de Ajuste..., que dessa vez contou com a produção do Boi Voador.

Resumidamente, Ajuste... trata do cotidiano da tripulação de uma nave (a primeira a sair do sistema solar) que, por conta de um infeliz desvio de rota, se vê numa jornada de volta ao lar que irá durar 80 anos.

A primeira coisa que chama atenção no larp é o set-up do jogo. Num diálogo intenso com RPGs de mesa e boardgames, os participantes são convidados a criar o futuro no qual estarão inseridos em Ajuste..., ao utilizarem post-it para responder o que mudou no mundo em três âmbitos: Ciência & Tecnologia; Economia & Política; Comportamento & Cultura. Depois de um brainstorm, os participantes decidem colaborativamente o que permanece e o que sai, dentre as ideias propostas. Depois disso, mais ainda utilizando mecânica similar, é a hora de construir o esqueleto das personagens: além de nome, idade e função na nave, é respondido o que deixa a personagem feliz, irritada e amedrontada. Mais do que meramente um set-up, essa etapa pode ser facilmente compreendida como um workshop para Ajuste..., uma vez que prepara os participantes não apenas para algumas dinâmicas/mecânicas do larp, como também a própria acomodação dos corpos na situação em que passarão na sequência.

Isso porque Ajuste... é pensado para ocorrer durante os momentos de refeição da tripulação da nave. Dessa maneira, durante os momentos de jogo, os participantes sempre estão sentados à mesa. Entre uma refeição e outra, intercalam-se momentos onde é feita a preparação para a próxima refeição, ao mesmo tempo em que os participantes tem a possibilidade de saírem um pouco do jogo (e da mesa).

A necessidade das pausas fica evidente na duração de Ajuste...: aplicado na madrugada do dia 8 para o dia 9, o larp teve 12 horas de duração (conforme já orientado na ficha de inscrição prévia). E isso marcou uma de suas principais características: Ajuste... é um larp de resistência.

Muitos dos elementos na proposta do larp constroem essa estrutura de resistência, além da longa (apesar de incerta) duração. O primeiro deles é a alimentação: a organização do larp providenciou a alimentação com uma preocupação diegética e extra-diegética. Além de garantir o sustento dos participantes na duração do larp, existiu uma preocupação em garantir que as refeições diegéticas tivessem verossimilhança. Para desempenhar essa função, foi optado pelo uso do iogurte natural, não adoçado (com preocupação em garantir iogurte sem lactose para aqueles que fossem intolerantes). O iogurte, insosso, dava a sensação de uma refeição laboratorial de uma nave, ao mesmo tempo em que criava uma monotonia, além de promover uma certa repulsa nos participantes. A escolha, acertada, foi uma importante ferramenta dramatúrgica de Prado.

Além disso, a composição cênica visava enfadar cada um dos 13 participantes: roupas idênticas providenciadas para cada um; iluminação branca que irritava a visão; uma mesa que criava distâncias e proximidades forçadas; uma trilha sonora que, se no começo do larp parecia uma música adequada, no final parecia um ruído branco irritante. Tudo isso, meticulosamente escolhido, criava uma atmosfera perene de tédio e de irritabilidade que dialogava diretamente com as suposições para uma tripulação forçada a viver (ou morrer) junta. A longa duração (12 horas) certamente também foi uma ferramenta criativa para remeter aos 80 anos de viagem.

Essa resistência necessária para jogar o larp, em várias frentes (física, psicológica, alimentar, visual, emocional), levou a discussões no debrief sobre o quanto o larp convida ao engajamento e à responsabilidade coletiva na criação da narrativa. Se no começo haviam 13 participantes, ao final de Ajuste... 6 pessoas estavam sentadas à mesa para o debrief.

Por último, comum às ficções científicas, Ajuste... promoveu uma interessante leitura do presente. A polarização econômica fez-se valer, assim como debates de gênero.

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