Manifesto do Jeitinho Brasileiro

MANIFESTO DO JEITINHO BRASILEIRO


Da aurora de nossas experimentações com o larp, nós, enquanto brasileiros, já nos deparamos com algo que fazia valer nossa cultura sobre as imposições cristalizadas em um manual de regras. Se Leis da Noite, o primeiro “manual” de larp que chegava no Brasil, já previa a regra do “não tocar”, nos víamos diante de um celeuma. E o jeito, já nos primórdios do larp praticado nessas terras, foi usar o famoso “jeitinho brasileiro”. Pelo jeitinho brasileiro, nos manifestamos:

  1. Jogar é Tocar. Não somos estadunidenses. Isso é importante evidenciar. Nossas culturas são diferentes. Aqui, nós nos abraçamos, damos beijos no rosto (um, dois ou até três!) quando conhecemos alguém, pegamos nas mãos uns dos outros, colocamos a mão sobre o ombro de alguém quando queremos dizer algo importante, esbarramos uns nos outros nos transportes coletivos lotados. Nossa “bolha” é muito menor. Portanto, é estranho que não possamos nos tocar durante os larps. A premissa de que isso mantém segurança nunca nos convenceu: quando algo dá errado, irá ocorrer com ou sem o toque. Mais do que isso, nós tocamos as coisas. Tocamos atabaque, mas também tocamos violão e piano erudito, falamos “SE TOQUE” para alguém que perde o bom-senso. Tocar, em português, remete a to play, não por acaso, o verbo usado para jogar. Contra as tele-presenças, evocamos a existência de corpos em nossos larps, sob os auspícios de Boal. Somos brasileiros: existimos, logo pensamos. Por isso, para nós, o toque não é proibido. A falta consenso o é.
  2. Jogar para Somar. Em algum momento, já jogamos para perder. O sentido disso era garantir que cada um dos jogadores não tivesse por foco que a narrativa de seu personagem fosse, de alguma forma, vencedora. Mas ainda assim, pensamos que jogar para perder parte da mesma visão individualista, talvez utilitarista do jogar para ganhar. Não implica, a princípio, preocupação com o jogo do outro. Jogar para somar, por outro lado, nasce da colaboração. Não poderia ser diferente, por sermos tributários de Paulo Freire, que nos ensina que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Pretendemos, a partir disso, propor um larp que saia da dinâmica de vencedor (opressor) e perdedor (oprimido).
  3. A terceira margem do rio. Nem larp nórdico, nem jeito sulista: tomar um manifesto escrito na Itália como manifesto sulista é ignorar tudo o que acontece ao sul da linha do Equador. Mesmo que em pontos divergentes, compartilham do mesmo relevo. Da mesma margem. Contra uma visão eurocêntrica (alguns dirão colonialista), celebramos ao poeta Guimarães Rosa, e sua terceira margem do rio. Filhos de pais cumpridores e mães régias, nos recusamos a ficar na primeira margem ou chegar à segunda margem. Trocamos a segurança do solo pela fluidez do rio. Mudamos “no devagar depressa dos tempos”, ao mesmo tempo em que afirmamos que “ninguém é doido. Ou, então, todos”. Não nos alinhamos, embora tenhamos bebido desses mananciais, nem ao larp nórdico nem ao jeito sulista. Os larps blockbuster, ou as chanchadas, não competem a nós.
  4. Larp da fome. Se o Dogma 99 parte de uma inspiração do Manifesto Dogma 95 (do cinema), transliterado ao larp, nos sentimos no dever de evocar a estética da fome e o Cinema Novo de Glauber Rocha. Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça? Não. Também. Para longe dos figurinos e cenografias exuberantes, o larp da fome buscou, busca e buscará a redução de todos os acessórios, procurando pela essência do larp. Um larp minimalista? Talvez. Mas mais do que isso. Um larp que compreende que a ilusão 360º pode ser criada pensando em larps que se passem em um bar, para serem jogados em um bar. Numa sala branca com luzes diretamente nos olhos, reproduzindo a higienização high-tech de uma nave espacial. Numa garrafa de café. Num cigarro. Na cachaça oferecida à uma entidade. No uso dos próprios participantes como cenografia. O larp não sendo visto pela lente do cinema é pensar que a violência do larp reside justamente na sua negação ao espetáculo.
  5. Manguebleed. Tributários do manguebit, entendemos o larp como uma forma de arte, uma mídia e uma linguagem. Mas também entendemos o larp como ocupação. Um choque contra o coração de uma cultura à beira do infarto. O protagonismo inerente aos larps é uma resposta ao consumo de uma cultura cada vez mais pasteurizada. Por isso, procuramos pelas brechas, pelos não-lugares. A blackbox não nos é algo viavelmente disponível. No lugar dela, os bares, os restaurantes, as garagens desocupadas, os parques, os centros culturais, as salas de aula, as praças, as bibliotecas públicas, as chácaras coletivamente alugadas. Façamos com que esses corações voltem a irrigar sangue para a relação indivíduo-espaço público.
  6. Por um larp antropófago. Temos uma cena diversa e descentralizada no Brasil. E a falta de centralização (por vezes, até de diálogo) é o que garante a diversidade. Não seria exagero dizer que só a participação nos une. Dos reinos do nordeste ao sul do boffer larp, do MilSim paranaense, da Comuna paulista de larp, dos larps de World of Darkness em diversas cidades espalhadas pelo país, do larp praticado em eventos, do larp enquanto prática cultural reconhecida pelas políticas públicas, do larp dentro de apartamentos – a única coisa que é compartilhada é o interesse na participação. Em devorar a contribuições do outro. “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”, diria nosso quase centenário Manifesto Antropófago. Negar a isso seria negar o jeitinho brasileiro. Negar nossa, nas palavras de Oswald de Andrade, “consciência participante”.

Um Voto de libertinagem?

Pois a castidade não cabe a nós...


Tadeu Rodrigues, após longas conversas com Luiz Prado e Luiz Falcão
Ano 464 da Deglutição do Bispo Sardinha

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