O Enigma do Imperador Todaparte e a cidade que sumiu

Ilustração: Pedro Inac
FONTE: Ilustração de Pedro Indio Negro


Um larp infantil. Um larp infantil? Uma afirmação, e ao mesmo tempo uma pergunta sincera. 

No aspecto afirmativo, a produção da Confraria das Ideias apresenta ao público infantil do SESC Paulista a narrativa de um imperador que miniaturiza e coleciona monumentos históricos. Em sua passagem por São Paulo, um jornalista pede ajuda para as crianças para enfrentar os desafios apresentados pela corte de Todaparte para que possam recuperar os monumentos.

O valor social se apresenta de maneira clara e sem rebuscamentos: mostrar para as crianças monumentos como o MASP, o Teatro Municipal, a Estação da Luz  e o Memorial da América Latina. Ao mesmo tempo, colocar em questão o direito de posse do Imperador sobre tais monumentos. Mais ainda, colocar as crianças diante de testes de ordem intelectual, motora e perceptiva. Tudo isso regado a doses amplas de humor. Num campo mais abstrato, evoca a utilização do espaço público, uma vez que a atividade ocorre em frente à unidade do SESC, na própria Avenida Paulista.

A pergunta que também se apresenta é se "O Enigma..." é apenas um larp infantil, uma vez que os personagens de apoio tem uma inspiração óbvia em figuras do nosso cotidiano político. Uma paródia? E que paródia não é ela também uma crítica? Até que ponto nossa própria estrutura governamental não é ela mesma um Auto? Personagens como o Sabonetão Todaparte, Imperador de Tudo-isso-que-taí, o jornaleiro e jornalista Matraqueiro, o General Machão, o Professor Colado e a Professora Orvalho, a bufona Medamais e o Eta, Juizão! são associações livres de figuras proeminentes da nossa esfera social. Mas seriam essas referências para as crianças ou para os seus pais, que acompanham o decorrer dos larps?

"O Enigma..." foi executado num total de seis aplicações, nos dias 9/7, 21/7 e 4/8 (duas sessões por dia). As duas primeiras sessões sessões ocorreram de maneira muito distinta: a primeira delas, com um número menor e oscilante de crianças participantes. Na segunda, um número maior, e constante de crianças. E o que me chama atenção é justamente o motivo da oscilação na primeira sessão: como o larp ocorreu na frente da unidade do SESC, ele era literalmente aberto ao público que transitava pelo local (formalmente, era necessária uma inscrição prévia na unidade do SESC - contudo, não foi a política da Confraria impedir que o público espontâneo participasse). Dentre as participações espontâneas, destacou-se o ingresso de duas crianças em situação de rua. Em decorrência disso, observamos (aturdidos) um padrão de comportamento dos pais: vários deles retiravam seus filhos do larp, nitidamente devido à presença das duas crianças em situação de rua. Tanto que o larp terminou com apenas três crianças.

Será que esses personagens caricatos não refletem uma sociedade "caricata", que lida com seus preconceitos e segregações de uma maneira (com o perdão do trocadilho) infantilizada? Para quem participava como personagens de apoio (como foi o meu caso) era uma situação extremamente desconfortável. Ao mesmo tempo em que se fazia uma vontade de paralisar o larp e ter uma conversa enérgica e sincera com os pais, a respeito da postura assumida por eles, também se fazia presente uma vontade de manter a farsa, em prol do momento de entretenimento daquelas duas crianças. No final da sessão, um ar de tristeza se fez presente. Contudo, é importante deixar evidente, terminamos o dia com esperanças renovadas: na segunda sessão, uma das crianças em situação de rua estava de volta, e o comportamento dos pais desse segundo grupo de crianças não foi o mesmo: as crianças conviveram harmoniosamente, sem trazer à baila o abismo social existente entre elas.

Do ponto de vista das explorações do larp enquanto linguagem, fica patente o diálogo que tive com o Paulo (um dos confrades) sobre o quanto o larp infantil era multifacetado. Para os transeuntes, acreditamos que seja impossível de distinguir de qualquer teatro infantil. Para os adultos que desempenharam personagens de apoio, em nada se distingue de um "larp adulto": estávamos igualmente desempenhando papeis, lidando com estímulos de outros participantes (sejam eles os outros personagens de apoio ou as crianças), construindo coletivamente uma narrativa. E para as crianças, talvez o larp não tenha sido nada muito diferente de uma gincana. Muito embora aqui se faça presente a diferenciação entre personagem e papel ou, no idioma bretão, character e role: crianças ou adultos, todos tinham um papel a desempenhar na trama, fosse ele propor desafios ou superá-los. Porém, a estrutura pré-estabelecida e mais rígida de personagens coube aos participantes adultos, uma vez que era necessário a composição prévia de figurino, maquiagem e uma série de fates a seguir.

Curioso foi notar que nas duas próximas sessões, fizeram-se presentes novamente crianças em situação de rua. Porém, diferentemente da primeira sessão, pais e mães não repetiram a postura de afastar crianças daquelas outras que já são separadas por um abismo sócio-econômico. Igualmente curiosa, na segunda data de aplicação do larp, foi a reflexão sobre a valoração diversa a diferentes modalidades artísticas. Fomos alocados num camarim diferente da primeira execução. Muito menor, sem ventilação e com o buraco no teto que presumo outrora ter sido destinado a um ar condicionado vazio, coberto com um revestimento de papel improvisado. Para tornar a estadia mais confortável, tomamos a decisão de abrir a porta do camarim, permitindo a ventilação. Não demorou muito para que fossemos advertidos pela organização do SESC Paulista, uma vez que a iluminação proveniente da nossa porta aberta atrapalhava a iluminação prevista para a exposição das fotografias de Sebastião Salgado que ocorria no andar inferior. A exposição era ótima, mas não deixo de pensar que modelo cultural é esse que permite que pessoas sejam submetidas a um desconforto físico em prol da iluminação de imagens. Estaria a fotografia, objeto exemplar da reprodutibilidade técnica benjaminiana, imbuído de uma aura? Ou seria esse um termômetro da iconofagia baitelliana, onde imagens devoram corpos?

Nas sessões do último dia, os pais das crianças voltaram a chamar os holofotes para si. Na primeira aplicação, quando entrei no larp (os personagens de apoio entravam em determinada ordem), duas crianças participavam. Posteriormente, os jogadores dos demais personagens de apoio reclamaram sobre a postura de pais que, mesmo a contragosto das crianças, as retiraram no meio do larp, interessados em ir fazer outras coisas. Na última aplicação, por outro lado, uma das crianças decidiu apoiar o vilão desde o começo do larp. Já no final, decidiu confirmar com o Imperador se ele era realmente "malvado". Ao ouvir a assertiva do vilão, voltou-se para o pai, com uma expressão que dava um ar de "e agora, o que eu faço?". A reação do pai, que muito me chamou a atenção, foi emancipadora, na minha opinião. Deu uma resposta que, embora não tivesse conseguido ouvir, envolvia uma expressão que passava a mensagem de "eu não sei, é você quem deve decidir".

Talvez, de tudo que experimentei nesses três dias, "eu não sei, é você quem deve decidir" seja a frase que melhor sintetiza os eventos de O Enigma... Cabe ao participante, mais do que ao crítico ou ao analista (como me ponho aqui) decidir se aquelas foram experiências válidas, se o larp de certa forma dialoga com um tensionamento de mazelas sociais, se o Imperador Sabonetão é uma figura exclusiva da ficção, se a brincadeira é um estado de suspensão da realidade ou se o brincar é a própria realidade...

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